Jorge Palma, um dos nomes maiores da música portuguesa contemporânea, morreu esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, deixando uma obra de 54 anos que marcou várias gerações.
Jorge Palma, um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea, morreu na noite de segunda-feira, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. A notícia foi confirmada esta terça-feira pela família e agência do músico, através de uma mensagem partilhada nas redes sociais.
“É com profundo pesar e consternação que a família e agência de Jorge Palma informam a sua morte, ocorrida esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória”, refere o comunicado. O texto sublinha ainda o legado deixado pelo artista: “Com uma carreira de 54 anos dedicada à música portuguesa, Jorge Palma deixa uma obra assinalável que faz parte da nossa história. Deixa também muitos amigos pelo mundo, pessoas que conquistou com a sua generosidade e genialidade.”
A mulher, Rita Tomé, os filhos, Vicente e Francisco Palma, e os managers, André Sebastião e Tiago Branco, pediram que o músico seja recordado através da sua obra: “Neste momento de dor incalculável, a mulher, Rita Tomé, os filhos, Vicente e Francisco Palma, e os managers, André Sebastião e Tiago Branco, pedem que Jorge Palma seja lembrado pelas suas canções e palavras, agradecendo toda a amizade demonstrada ao longo dos anos.” As informações sobre as cerimónias fúnebres serão divulgadas oportunamente.
Uma vida dedicada à música desde a infância
Nascido em Lisboa a 4 de junho de 1950, Jorge Manuel de Abreu Palma revelou desde cedo uma ligação especial à música: começou a aprender piano e a ler partituras aos seis anos, e aos oito anos já se apresentava no Auditório do Conservatório Nacional. Aos 13 anos, conquistou o segundo lugar, com menção honrosa, num concurso musical em Palma de Maiorca, Espanha.
Em 1964, o fascínio pela música clássica deu lugar ao rock’n’roll, ao pop-rock e à música popular anglo-americana. Foi nesta altura que descobriu a guitarra e encontrou em Bob Dylan, Led Zeppelin e Lou Reed as suas grandes referências musicais.
A carreira na música popular arrancou em 1967, nos Black Boys, seguindo-se a passagem pelos Sindicato, entre 1969 e 1971, como teclista e cantor — período que incluiu uma atuação na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros. A carreira a solo começou em 1972, com o single em inglês “The Nine Billion Names Of God”. No final de 1973, exilou-se na Dinamarca para escapar à Guerra Colonial, regressando a Portugal depois do 25 de Abril de 1974. Durante esses anos, viveu como músico de rua em cidades europeias como Paris e Copenhaga, uma experiência que deixou marca profunda na sua obra.
O primeiro álbum, “Com Uma Viagem Na Palma da Mão”, foi editado em 1975, reunindo canções compostas durante o exílio. Os anos 80 trouxeram o regresso definitivo a Portugal e um período de grande reconhecimento público, com discos como “O Lado Errado da Noite” (1985) — que deu origem a êxitos como “Frágil” e “Deixa-me Rir” — e “Bairro do Amor” (1989). Em 1991, já depois de concluir o Curso Superior de Piano, lançou “Só”, álbum intimista com voz e piano que se tornou uma das suas imagens de marca.
Ao longo da carreira, Jorge Palma integrou ainda projetos como Palma’s Gang, Rio Grande e Cabeças no Ar, e em 2015 editou o álbum ao vivo “Juntos”, em colaboração com Sérgio Godinho. O disco “Voo Nocturno” (2007) alcançou a dupla platina e popularizou o single “Encosta-te a Mim”, um dos temas mais conhecidos do artista. O último álbum de originais, “Vida”, chegou em 2023, e em 2024 o músico subiu ao palco com os filhos, Vicente e Francisco Palma, no espetáculo “3 Palmas na Mão”.
Jorge Palma recebeu várias distinções ao longo da carreira, entre elas o Prémio José Afonso, em 2002, dois Globos de Ouro como melhor intérprete individual (2008 e 2012), a Medalha de Mérito Cultural da Cidade de Lisboa e a condecoração como Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, ambas em 2020. Em abril de 2026, foi ainda homenageado com o Prémio Carreira nos PLAY – Prémios da Música Portuguesa.
Apelidado de “Bob Dylan português”, Jorge Palma era admirado pela forma como misturava rock, folk e influências da música portuguesa, e pelas letras pessoais que abordavam temas universais como a solidão e a busca pela liberdade.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reagiu à notícia sublinhando que Portugal se despede de “um dos maiores ícones e poetas da música nacional”, cujas canções, com o seu “lirismo imprevisível e nunca de efeito fácil ou efémero”, continuarão a “iluminar a memória de várias gerações”.
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