Cristiano Ronaldo divulgou um comunicado em que conta a sua versão da polémica com Jorge Jesus, acusa o selecionador de não cumprir a palavra dada, assume os seus próprios erros e pede para ser punido.
Cristiano Ronaldo prometeu que falaria e falou. Esta terça-feira, 6 de outubro, o capitão da Seleção Nacional divulgou um comunicado extenso em que reconstitui, ponto por ponto, a polémica com Jorge Jesus que o levou a abandonar o estágio na semana passada. O texto é uma mistura de acusação, pedido de desculpa e promessa: aponta falhas ao selecionador, assume erros próprios e deixa claro que aguarda a sua punição por ter abandonado o estágio.
Leia o comunicado na íntegra de Cristiano Ronaldo:
“Como prometido, decidi contar, na primeira pessoa e diretamente, as circunstâncias que envolveram o último estágio da Seleção Nacional. Depois do Mundial de 2026, preparei uma carta para o povo português, que ainda tenho comigo, contendo as palavras que quero dirigir-lhes quando deixar definitivamente a Seleção Nacional. No final do torneio, no voo de regresso dos Estados Unidos, o Presidente da Federação pediu-me e insistiu para que reconsiderasse a decisão de sair, porque a FPF queria que eu continuasse. Logo depois, pediu-me a minha opinião sobre o nome do atual selecionador, que estava a considerar, juntamente com outros nomes que não me revelou. Disse ao Presidente da Federação que, na minha opinião, ele seria a escolha certa.
Foi por isso que, no dia em que o atual selecionador foi anunciado, fiquei genuinamente feliz com a escolha. Era a opção certa, como os resultados estão a demonstrar.
Alguns dias depois, recebi um primeiro contacto do novo selecionador, dizendo que gostaria de se encontrar comigo pessoalmente. Eu aceitei e marcámos o encontro para o final das minhas férias. Encontrámo-nos na Cidade do Futebol, onde o meu clube estava a realizar o estágio de pré-temporada. Nesse dia, o selecionador disse-me que contava comigo e que a minha presença era essencial para o seu projeto. Apresentou-me, ali mesmo, um plano para a minha participação. Disse-me que eu jogaria o primeiro e o último jogo e que, por razões de gestão física, faria sempre três ou quatro alterações por partida.
Nesse momento, apresentou a ideia de eu não viajar com a equipa para a Noruega e a Dinamarca. Propôs que eu jogasse o primeiro jogo, permanecesse em Portugal e depois voltasse a juntar-me à equipa antes do jogo no Dragão. Recusei imediatamente essa proposta. Pareceu-me óbvio que não podia aceitá-la. Mesmo que não fosse jogar os jogos no estrangeiro, continuava a ser o capitão da nossa equipa. Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo. O selecionador acabou por concordar com o meu ponto de vista.
Esta conversa contou com a presença de Simão Coutinho, diretor desportivo do Al Nassr, a pessoa a quem o atual selecionador reportou durante toda a época passada e uma das pessoas responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025. Na véspera do início do estágio, o selecionador foi a minha casa, em Lisboa, a seu pedido, para termos outra conversa. A conversa foi tranquila e todos os princípios acordados em agosto foram mantidos.
Joguei o jogo em Alvalade e, embora tenha sido substituído, não fiz qualquer questão. Fui eu próprio que coloquei a braçadeira em Bruno Fernandes, longe de imaginar que poderia estar a dar os meus últimos passos como jogador e capitão da Seleção Nacional. O que me importava naquele dia era a nossa vitória. Ganhar é sempre bom; em Portugal e pelo meu país, ainda melhor. Ao almoço, no dia do jogo na Noruega, um adjunto do selecionador aproximou-se da mesa onde o grupo estava a almoçar e disse-me que o selecionador queria falar comigo. Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se eu estava disponível para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente concentrado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre, e a pensar que não iria jogar naquele dia. Não havia problema. Esse pedido estava fora do meu plano de recuperação física e de treino, porque eu só iria jogar no dia 4, no Dragão, mas obviamente disse que sim. Ele respondeu que eu deveria estar preparado, porque iria jogar 30 minutos.
O resto, todos sabem. Aqueci desde o intervalo, vi os minutos passar e nunca fui chamado. O selecionador não cumpriu a sua palavra. No final do jogo, eu só queria que tudo terminasse com uma vitória e que me deixassem sozinho. Não fui cumprimentar os adeptos. Essa foi uma falha que é exclusivamente da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido.
Peço desculpa ao povo português que nos apoiou ali, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa àqueles que, não sendo portugueses, possam ter viajado até lá para me ver e a quem eventualmente tenha desiludido.
Quarenta e oito horas depois, tivemos uma conversa: eu, o selecionador e Simão Coutinho, uma vez que ele tinha estado presente nas nossas conversas de agosto. Foi um momento profundo, muito franco, sem qualquer tipo de filtro. Concordámos que havia apenas uma forma de encerrar esta “questão”: o selecionador repetir aquilo que acabara de me dizer em privado, na presença de Simão Coutinho, mas na Sala de Imprensa.
O que foi acordado era simples: o selecionador começaria a conferência de imprensa com este tema, procurando encerrar o assunto dizendo a verdade. Diria que eu nunca pedi para jogar qualquer minuto, que tinha sido o selecionador, e mais ninguém, a propor-me o plano para este estágio, que tinha sido um erro fazer-me aquecer e depois não me colocar em campo e que, se voltasse a acontecer, não o faria.
Terminámos essa reunião com o selecionador a pedir-me um abraço, prometendo-me que diria na conferência de imprensa aquilo que acabara de me dizer e que o assunto ficaria para trás. Eu não jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo no Dragão. Tudo isto na presença de Simão Coutinho, sempre. A pedido do selecionador, teve depois lugar uma reunião entre ele, Simão Coutinho e Hago Craveiro, por videoconferência, na qual foi discutido aquilo que tínhamos combinado.
Foi elaborado um pequeno documento, que eu próprio validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao selecionador, tal como ele tinha pedido. A conferência foi aquilo que todos conhecem: a atitude nada teve a ver com a nossa reunião. Ouvi expressões e uma agressividade que acredito não merecer, uma atitude de “superioridade” que ele nunca me demonstrou, nem de perto, em privado, no dia anterior.
As notas que validei foram as seguintes:
“Penso que é importante, até porque é a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca:
- Fui eu próprio, sem mais ninguém, que propus ao Cristiano um plano para esta época na Seleção Nacional. Foi uma conversa longa e muito boa.
- Sei o quanto ele vive para a Seleção Nacional e o quanto a ama, e o peso que tem no Mundo e, ainda mais, o peso e a influência positiva que teve na Seleção Nacional durante 24 anos consecutivos.
- O plano que propus ao Cristiano foi aceite.
- Ele nunca questionou as minhas escolhas. Foi exemplar, leal e profissional.
- O jogo na Noruega não fazia parte do plano que tinha traçado para ele. No entanto, achei que tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o de que poderia ter de utilizá-lo. O Cristiano concordou.
- Cometi um erro ao fazer alguém com a dimensão de Pelé ou Maradona aquecer e depois não o colocar no jogo. Se fosse hoje, não o faria.
- Para encerrar o assunto: quero o Cristiano na Seleção Nacional. Na verdade, não o quero apenas um pouco, quero-o muito. Felizmente, ele também acredita em mim. Acreditou em mim no Al Nassr e acredita aqui também.
- Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Alguém que disputou mais de 230 jogos pela Seleção Nacional não recebe lições minhas sobre amor por Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga nada. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira e que mais carinho demonstra aos adeptos. Não vamos inventar problemas onde eles não existem. Quando não estamos felizes, reagimos. Foi só isso.”
Nenhuma destas notas, portanto, exigia sequer que o selecionador me pedisse desculpa. Foi a segunda vez que ele não cumpriu a sua palavra comigo. Decidi deixar o estágio sem esperar por mais nenhuma promessa quebrada. Para mim, a verdade continua a ser o mais importante numa relação entre pessoas. Por mais que possa doer, digam-me a verdade.
Na verdade, numa conversa que tive com o Presidente da FPF e com o selecionador na manhã do dia daquela conferência de imprensa, que eles certamente poderão confirmar, reafirmei que, se não me queriam lá, deveriam dizê-lo. Tudo o que tinham de fazer era ser francos comigo. Eu aceitaria e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que possa acontecer, e ninguém ficaria zangado.
Lembro-me disso como se fosse hoje. Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção Nacional. Nunca, em momento algum, interferi em qualquer decisão técnica ou tática de nenhum treinador ou selecionador nacional em quase 25 anos de futebol. Limito-me a aceitar, melhor ou pior, aquilo que me propõem. Respeito a decisão e, quando quebram a palavra que me deram, sinto que o meu lugar não é ali.
Também devo um pedido de desculpas aos meus companheiros da Seleção Nacional por ter deixado o estágio. Apesar da quebra absoluta de confiança na palavra do selecionador, como qualquer pessoa que tenha testemunhado estas conversas poderá confirmar, não deveria tê-lo feito. A responsabilidade é inteiramente minha.
Peço novamente desculpa ao povo português, mas a quebra de uma promessa tem, para mim, um impacto determinante. Senti que, a partir daquele momento, a minha permanência só iria prejudicar o grupo e fiz aquilo que sempre disse que faria se não sentisse que sou útil: peguei nas minhas coisas e fui embora.
A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Acredito que a punição não deveria ter fatores atenuantes. Não sou apenas mais um jogador. Sou capitão da equipa, e isso é um fator agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as ações têm de ter consequências. Qualquer pessoa no futebol, como eu, sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos. Neste sentido, tenho ouvido falar muito sobre jogos de despedida, sobre eu ter de ter uma despedida digna e sobre a Federação querer dar-me essa oportunidade.
Aprendi na vida, passando fome e sem nada para comer, que ninguém dá nada a ninguém. Posso prometer a todos os meus fãs e, naturalmente e sobretudo, a todo o povo português, que teremos um ou mais jogos de despedida; haverá tempo para isso. Mas, quando penso na Seleção Nacional, aquilo em que realmente penso é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a notícia da morte do meu pai. Estava no estágio da nossa Seleção Nacional e decidi permanecer lá até ao final do jogo do dia seguinte. Fiz, portanto, pelo meu país aquilo que nunca faria por nenhum clube.
Por isso, se estiver fisicamente bem, a jogar pelo meu clube, espero que com golos, depois de cumprir qualquer suspensão que me seja aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e vencer pela nossa Seleção Nacional. Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.”
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